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A construção de uma rede de engenharia popular

Rede de Engenharia Popular Oswaldo Sevá

14 December, 2015

The engineering subject is rarely connected with issues such as inequality, poverty, alternative development projects and society. The connections, however, are many and very important. Brazil is an unequal country, where much of the population has no access to basic rights such as housing, sanitation, etc. But these are not the only difficulties these people face. Lack of access to public universities, to the engineering courses and to developed technologies are added to the immense challenges that poor people, on the outskirts of the cities or the countryside, have faced daily.

O tema da engenharia raramente é conectado com temas como desigualdade, pobreza, projetos alternativos de desenvolvimento e de sociedade. As conexões, no entanto, são muitas e muito importantes. O Brasil é um país desigual, no qual grande parte da população não tem acesso a direitos básicos como moradia, saneamento básico, etc. Mas essas não são as únicas dificuldades que essas pessoas enfrentam. A falta de acesso à universidade pública, aos cursos de engenharia e às tecnologias desenvolvidas se somam aos imensos desafios que as pessoas pobres, da periferia das cidades ou do campo, têm enfrentado cotidianamente.

Por outro lado, as universidades, as engenharias e o desenvolvimento científico e tecnológico são, de maneira geral, distante das necessidades, vontades, valores e saberes das classes populares. Atrás de uma falsa ideia de neutralidade e distanciamento da realidade, o desenvolvimento científico e tecnológico se aproxima cada vez mais dos interesses de grandes empresas multinacionais e de suas práticas nefastas à classe trabalhadora, à natureza, à saúde e à democracia. As consequências desses processos são evidentes: o avanço do agronegócio no campo com concentração das terras, destruição da natureza, privatização dos saberes e das sementes; a construção de grandes obras da engenharia como usinas hidrelétricas com desrespeito às populações atingidas e ao meio ambiente, além de outros inúmeros casos.

 Figura 1: Ocupação da empresa FuturaGene de mudas de eucalipto transgênico por camponesas do MST

Na busca pela democratização da ciência e da tecnologia, a engenharia também se transforma, se critica e se reinventa. Do tradicional e conservador, desponta em todo país uma engenharia que se reconhece como parte da educação popular e da pesquisa-extensionista. A verdade absoluta e o conhecimento técnico, se transformam em diálogo, respeito e reconhecimento do protagonismo dos povos e comunidades tradicionais, da classe trabalhadora e dos movimentos sociais. Foi nesse contexto que em 2004 foi criado o Encontro Nacional de Engenharia e Desenvolvimento Social – ENEDS (www.eneds.org), a partir da mobilização de estudantes da engenharia que estavam insatisfeitos com a perspectiva de seus cursos.

O objetivo do encontro era fazer uma reflexão crítica sobre a atuação da engenharia, seus limites e possibilidades no desenvolvimento social, além de caminhos para construir uma nova engenharia a serviço dos movimentos sociais, dos grupos populares e dos trabalhadores de maneira geral. Os quatro primeiros ENEDS ocorreram no Rio de Janeiro (UFRJ) e, a partir do quinto ano, o ENEDS começou a rodar pelo Brasil. Assim, foi para São Paulo/SP (USP), Campinas/SP (Unicamp), Teófilo Otoni/MG (UFVJM), Ouro Preto/MG (UFOP), Natal/RN (UFRN), de volta para o Rio de Janeiro (UFRJ) na décima edição e, por fim, no ano passado foi para Castanhal/PA (IFPA)

Tantos temas e grupos envolvidos fizeram surgir a necessidade de pensar também em encontros regionais. Desde 2011 já foram 14 Encontros Regionais de Engenharia e Desenvolvimento Social (EREDS), que permitiram incluir as especificidades das questões locais e regionais, além de aumentar a capacidade de sensibilização e mobilização dos estudantes de engenharia de diversos estados e regiões do pais. Neste ano de 2015 comemoramos a realização, pela primeira vez, dos EREDS nas cinco regiões do Brasil.

No ano de 2015, o ENEDS ocorreu em Salvador/BA (UFBA). Foi um dos eventos com maior público presente, com mais de 1500 pessoas inscritas no site, com 700 pessoas credenciadas no evento (que é gratuito e aberto, dessa forma não é necessário se credenciar para assistir) e com o auditório principal de 400 lugares sempre cheio (com pessoas sentadas no chão). O evento recebeu caravanas de todas as regiões do Brasil, tendo mais de 250 pessoas no alojamento (que também era gratuito). Foram quatro dias de evento que teve como tema "Por trás de cada tecnologia, há sempre uma ideologia", com palestras sobre “Engenharia e Autogestão”, “O sistema energético e a construção de uma nação justa, soberana e sustentável” e “Racismo, machismo e LGBTfobia na engenharia”, além de apresentações de artigos e minicursos.

 Figura 2: Auditório lotado na mesa sobre Engenharia e Opressões no ENEDS 2015

O amadurecimento deste movimento fez surgir também a Rede de Engenharia Popular Oswaldo Sevá - REPOS (www.repos.net.br). O objetivo principal da REPOS é articular a engenharia para atender as demandas dos movimentos sociais, grupos populares e trabalhadores(as) organizados, sempre em processo de diálogo e a partir da educação popular. A rede adotou o nome Oswaldo Sevá (http://www.ifch.unicamp.br/profseva/), pois reconhecemos nele o exemplo de um grande engenheiro, que militou incansavelmente junto com as populações que mais sofrem como vítimas de grandes projetos de engenharia, como as populações ribeirinhas e os povos indígenas. Sevá, enquanto teve saúde, deu sua valiosa contribuição para o ENEDS. Infelizmente faleceu no dia 28 de fevereiro de 2015.

A REPOS se encontra em construção e tem como um dos elementos centrais a ação, pois consideramos que a prática e a reflexão a partir do concreto/material fazem a organização. Buscamos com isso reconhecer e valorizar as particularidades locais, sem perder as dimensões globais que nos unem em uma luta maior, contextualizadas pelos princípios: (i) Educação Popular; (ii) Autogestão; (iii) Justiça social e ambiental; (iv) Feminismo, anti-racismo e contra LGBTfobia; (v) Cuidado com a vida; (vi) Valorização da cultura em sua diversidade; e (vii) Reconhecimento e diálogo entre os diversos saberes (populares, tradicionais, acadêmicos, das diferentes disciplinas).

Figura 3: Primeiro encontro da REPOS, ocorrido em Salvador/BA no dia anterior ao ENEDS2015

Dessa forma, partindo de nossos princípios, pretendemos auxiliar os movimentos sociais no desenvolvimento e readequação de processos e tecnologias de produção e comunicação, a partir do conhecimento da engenharia contextualizado com as questões sociais, políticas, culturais, ambientais e econômicas específicas de suas realidades.

Temos clareza que as tecnologias não são neutras, pois foram concebidas dentro do sistema capitalista e trazem seus valores em sua concepção. Assim, para que as tecnologias possam caminhar junto com a luta desses movimentos, devem ser concebidas a partir dos valores, crenças, expressões culturais, formas de organização e cultura política desses movimentos, sempre com o cuidado à vida e respeito ao meio ambiente.

 Figura 4: Encerramento do ENEDS2015

Assim, os ENEDS, EREDS e a REPOS buscam cumprir o que era demandado por Álvaro Vieira Pinto, em seu livro “O conceito da tecnologia”: que os engenheiros – aqueles que desenvolvem e praticam as técnicas e tecnologias – reflitam o sentido de tecnologia, o que fazem e por que fazem. Dessa forma, a ideia é combater a dissociação entre a teoria e a prática, pois segundo Vieira Pinto, muitas vezes a teoria é feita pelos práticos, sem refletir sobre o que estão fazendo, e a prática, imaginada pelos teóricos, sem a real vivência acerca do objeto de reflexão.

Rede de Engenharia Popular Oswaldo Sevá: Network of Brazilian engineers working on issues such as inequality, poverty and alternative development.

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