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Campo CTS na América latina e domínios psi: pequena crônica de encontros e desencontros.

Jimena Carrasca Madarriaga and Arthur Arruda Leal Ferreira

19 December, 2016

"A vida é a arte do encontro, apesar de tanto desencontro".  Vinícius de Moraes

What are the convergences, irritations and dialogues between PSY disciplines (psychology, psychiatry) and STS? Jimena Carrasco and Arthur Arruda Leal describe how some of these encounters are thoroughly explored and developed across  Latin American scholar networks. ​


Toda a vez que tentamos descrever o estado da arte de um campo de conhecimento (ou do encontro entre campos de conhecimento) em um território tão vasto e plural como na dita América Latina corremos o risco de cometer injustiças em sequência: 1) injustiça na descrição de invisibilizar alguns coletivos e redes; 2) injustiça na perenidade deste mapeamento, sabendo-o extremamente provisório dada a dinâmica do campo; 3) injustiça de tomar de maneira muito rígida ou muito flexível o que entendemos por domínios psi ou campo CTS (sermos assimétricos onde justo se busca a simetria como princípio); 4) injustiça na própria delimitação de uma América Latina (conceito produzido em tempos napoleônicos, que pode de um lado cortar artificialmente na análise linhas de conexão entre grupos diversos e por outro sugerir uma unidade problemática).​

Nossa maneira de tentar lidar com estas injustiças será:

1) e 2) Exortar narrativas que ampliem e refaçam esta descrição, não apagando o seu aspecto situado (a partir de certos centros braso-chilenos e de uma diversidade de encontros), mas complexificando-o com diferentes narrativas.

3)  Tomar os domínios Psi e CTS da forma mais plural e simétrica possível. Quanto aos domínios Psi, a proposta é de considerar simetricamente aos saberes e práticas estabelecidos, uma série de práticas fronteiriças menos reconhecidas e em busca de reconhecimento. Assim, serão considerados, por exemplo, estudos referentes aos conhecimentos e práticas das neurociências, psiquiatria, gestão, reabilitação, autoajuda, coaching, entre outros enquanto dispositivos de produção de subjetividades. No segundo caso, tentaremos manter todas as tensões referentes ao campo CTS entre suas manifestações das mais diversas tendências, acadêmicas e não acadêmicas.

4) Tomar a produção de alguns centros e linhas de conexão entre centros da América Latina Geográfica, do Norte do México à Patagônia. Muitos territórios não serão tocados pelo desconhecimento do que se tem produzido nestes domínios como na América Central, Caribe e Guianas.

 O modo geral de se fazer este levantamento é seguir pelo conjunto de encontros como os da Rede CTS Chile, Colóquio ESCT Colombia, Esocite Brasil, Anpepp, Esocite LA, EASST e 4S[1]. O privilégio será concedido mais a grupos do que a esforços singulares, ainda que estes mereçam em alguns casos destaque. Comecemos com nossos países. No Chile se realiza anualmente o encontro da Red CTS, instância que tem servido de plataforma para reunir a distintos pesquisadores que a partir das ciências sociais, da história, da antropologia e outras se aproximam do campo dos saberes psi. Há três edições do Encontro da Rede CTS Chile tem havido um Grupo de Trabalho (GT) voltado para o tema, do qual se derivou a proposta de um número especial na Revista Psicoperspectivas, no último encontro na cidade de Valparaiso.

Jimena Carrasco from Rede CTS Chile presenting at Universidad Austral de Chile. Source UACh News portal. 

Ademais, destaca-se a Rede Indivíduo-Matéria com a participação nossa, além de Jorge Castillo, Oriana Bernasconi, Vicente Sisto, Antonio Stecher, Rodrigo La Fabian, Carla Fardela, Patrício Rojas, Sebastian Rojas e Marcela Apaplaza. Esta reúne distintos temas de pesquisa que tem em comum o interesse pelas formas de produção de indivíduos, subjetividades e dispositivos psicológicos, tema igualmente presente no último Congresso de Sociologia chileno, onde integrantes desta rede propuseram um Grupo de Trabalho.

Temas como os sistemas de registro médicos, as mudanças no trabalho acadêmico, tecnologias desenvolvidas para a atenção de vítimas da ditadura, medicina baseada em evidências, medicalização da infância ou dispositivos de felicidade campeiam nestes trabalhos. Destaca-se aqui a presença de pesquisadores que vem de diversos campos, como psicologia, ciências sociais e terapia ocupacional.

No Brasil se confirma esta diversidade de áreas, incluindo estudos que vem especialmente na área de psicologia, ciências sociais, saúde coletiva, educação e comunicação. Começaremos pela descrição do que se tem produzido nos entornos da psicologia desde a primeira década deste século. É possível dizer que a teoria Ato-Rede e a Epistemologia Política, além dos estudos feministas de Donna Haraway têm sido um poderoso atrator de pesquisadores neste campo. Isto pode ser verificado pela presença destas referências em dois grupos de trabalho (GTs) da Anpepp (Associação Nacional de Pós-Graduação em Psicologia): Tecnologia e Modos de Subjetivação e Cotidiano e práticas sociais. Aqui temos as presenças de pesquisadores como Ronald Arendt, Rosa Pedro, Marcia Moraes, Arthur Leal Ferreira, Neuza Guareschi, Irme Bonamigo, Alexandra Tsallis, Laura Quadros, Mary Jane Spink, Dolores Galindo e outros[2]. Outros grupos ainda não se fazem representar dentro destes grupos da Anpepp como o de Maria de Fátima Queiróz (UFSJ), Leonardo Lemos (Unesp) ou André Morelli (UFAP). Estes grupos têm se redistribuído em vários outros como o Entre-Redes, o Cognição e Coletivos, o Necso (Núcleo de Estudos em Ciência e Sociedade) e o NECST (Cultura Contemporânea: subjetividade, conhecimento e tecnologia. E muito destes estudos já estão dispostos no livro Teoria Ator-Rede e Psicologia (Editora Nau, 2010). No entanto, nem todos estudos que entrelaçam domínios psi e campo CTS passam pelas fronteiras disciplinares da psicologia: Ciências Sociais (Iara Maria de Almeida e Elena Calvo Gonzales), Comunicação (André Parente e Fernanda Bruno), Educação (Aline Monteiro e Fátima Branquinho) e Saúde Coletiva (Francisco Ortega, Benílton Bezerra, Martinho Silva, Marcos Carvalho e Rogério Azize). Os temas envolvem questões como vigilância, cegueira, campo clínico, políticas públicas, campo educacional, dispositivos psiquiátricos, neurociências, fármacos, patologias, políticas públicas e relação homem/animal.

 Além de GTs específicos nos Encontros Esocite Brasil e Teoria Ator-Rede Brasil, em 2013 e 2014 tivemos duas edições do Encontro Psicologia, tecnologia e sociedade: controvérsias metodológicas e conceituais para uma análise das práticas de subjetivação com versões mais reduzidas em 2015 e 2016. Estes encontros se deram no marco do convênio internacional Capes & Udelar (Uruguai) vinculado ao projeto Psicologia e produção de subjetividades: um estudo comparativo das redes socio-técnicas engendradas em torno das práticas psicológicas e redundaram no livro Psicologia, tecnologia e sociedade (editora Nau) com trabalhos de pesquisadores brasileiros, uruguaios, chilenos (alguns já destacados no parágrafo anterior), colombianos, argentinos, espanhóis, portugueses, argentinos e mexicanos. No quadro do convênio referido, é importante destacar os contatos com o grupo uruguaio do programa HisPo (Fundamentos históricos y políticos de las prácticas en Psicología) da Udelar. Além de pesquisadores como Jorge Castro e Gonzalo Correa que já organizaram um primeiro encontro de pesquisadores CTS no Uruguai (2015), outros trabalhos como os de Adriana Molas, Javier Rey, Andrés Ganese, Diego Gonzales e Leonardo Riet se aproximam da conexão entre Estudos CTS e dispositivos Psi. A institucionalização da psicologia no Uruguai e a análise de uma série de dispositivos de políticas públicas são temas fortes deste grupo.

Outro grupo localmente forte na conexão entre arranjos psi e Estudos CTS pode ser encontrado em terras colombianas[3]. Aqui, destaca-se o GESCTM (Grupo de Estudios Sociales de la Ciencia, la Tecnología y la Medicina), grupo de pesquisadores de diferentes áreas e universidades, ainda que mais fortemente vinculado a grupos da Universidade Nacional e da Javeriana. Este grupo já pôde organizar um primeiro Colóquio Nacional ESCYT (2015), além de publicações de fôlego como Ensamblando Heteroglosias (UNC, 2013) de onde se pode destacar uma série de trabalhos relacionados ao campo CTS e Práticas Psi.  De maneira mais específica, encontros específicos como o Encuentro de Estudios Históricos y Sociales: Diálogo de Saberes, realizado em 2015 na Universidad Los Libertadores puderam destacar de maneira mais precisa os grupos que tem trabalhado neste tema como os pesquisadores Hernan Camilo Pulido, Luz Mery Carvajal, Bruno Jaraba, Freddy Mora, Paola Moreno e Joan Soto. Os temas analisados envolvem a construção e circulação de dispositivos de avaliação e inventários psicológicos, a disseminação da psicologia, controvérsias relativas à adoção de casais homoafetivos, adoção de técnicas behavioristas em prisões, registros de desplazados e articulações entre psicologia e pedagogia.

 Saindo dos cenários específicos localizados em territórios brasileiros, chilenos, uruguaios e colombianos, a descrição das pesquisas CTS voltadas para dispositivos Psi torna-se um pouco mais imprecisa, por limitações situadas de nossas próprias redes e históricos de encontros. Desta maneira, há o risco de se cometer uma tremenda injustiça com grupos localizados em outros países, especialmente em territórios de grande produção CTS como Argentina e México. Sobre estes gostaria de traçar rápidas pinceladas. No encontro Esocite & 4S de 2014 em Buenos Aires pudemos propor um GT  Psicología y Los Estudios en Ciencia, Tecnología y Sociedad (CTS) junto com Hernan Camilo Pulido. Neste pudemos nos deparar com trabalhos como os de Nicolás Viotti (CONICET) e Korman Guido Pablo (CONICET-UBA) sobre práticas terapêuticas, especialmente a TCC (Terapia Cognitiva - Comportamental) e Catriel Fierro sobre Historiografia da Psicologia. Ainda neste encontro ainda teríamos a mesa STS to and from psychology com o destaque para o trabalho de Ezequiel Benito dentro de uma perspectiva próxima à psicologia da ciência[4]. No México, nosso contato vem mais diretamente com o trabalho da pesquisadora Laura Morales da Universidad Autonoma de México (UAM) sobre o tema da deficiência/normalidade, trabalho apresentado em sua estadia pós-doutoral no Brasil.

 Este é o relato que podemos produzir em nossa perspectiva bastante situada e permeada por muitos encontros (e alguns desencontros) sobre arranjos psi e Estudos CTS na América Latina. Um relato que evidencia muitas lacunas como um quebra-cabeças que reclama a ausência de muitas peças. E que demanda muitos mais encontros e narrativas que transbordem e complexifiquem estas linhas iniciais. Isto é muito que podemos demandar desta primeira aproximação.

 

[1] Um importante encontro que se encontra na segunda edição, mas do qual ainda não tivemos oportunidade de participar é o  Congreso Argentino de Estudios Sociales de la Ciencia y la Tecnología (CAESCyT).

[2] A lista seria muito mais ampla se englobássemos estudantes da pós-graduação.

[3] Descrição reforçada por experiências de pós-doutoramento em 2014 na Universidad Javeriana.

[4] É possível por em discussão o vínculo da psicologia da ciência com o campo CTS. Efetivamente é um dos campos tradicionais de análise das ciências junto com a história e a sociologia das ciências. Contudo, um compromisso do campo CTS se dá justamente ao evitar a primazia de qualquer área efetivamente disciplinada e demarcada.

 

Jimena Carrasco Madariaga é Licenciada como Terapeuta Ocupacional pela Universidad de Chile, e Doutora em Psicologia Social pela Universidade Autónoma de Barcelona. Atualmente é professora da Faculdade de Medicina da Universidade Austral de Chile. Suas principais áreas de pesquisa são as políticas e reformas na área de saúde, saúde mental e psiquiatria, estudos de Governamentalidade

Arthur Arruda Leal Ferreira Professor Associado do Instituto de Psicologia da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e dos Programas de Pós-graduação em Psicologia Clínica (UFF), Psicologia (UFRJ) e de Historia da Ciência e das Técnicas e Epistemologia (UFRJ). É doutor em Psicologia Clínica pela Pontifícia Universidade Católica da São Paulo (Brasil) e pesquisador financiado pelo CNPq e FAPERJ

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