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Reflexões do workshop brasileiro sobre Mudanças Climáticas e Estudos Sociais da Ciência e Tecnologia

Jean Hochsprung Miguel

12 July, 2016

A growing number of Brazilian and South American research groups have been exploring the links between science and technology and climate policy. Informal networks have been set up and culminated in the Workshop on Climate Change, Technoscience and Society, which took place in April 11 and 12 at the University of Campinas (State of São Paulo, Brazil). The main objective of this meeting was to bring together STS researchers interested in the production of climate knowledge from South American perspectives. The meeting enabled a diagnosis of emergent initiatives of the Brazilian ans South American scientific communities and governmental institutions for responding the social and scientific challenges posed by climate change. (English version below Portuguese version)

Desde o estabelecimento do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC) em 1988, os potenciais impactos das mudanças climáticas globais chamaram a atenção da comunidade científica e se tornaram um tópico importante nas agendas políticas internacionais. Na medida em que as causas e consequências dessas mudanças se tornaram evidentes, os cientistas sociais sentiram-se chamados a contribuir para o entendimento científico a respeito do papel das sociedades humanas na mudança do clima.

Uma área de pesquisa social que têm contribuído significativamente para as pesquisas sobre esse tema são os ESCT's. Esses estudos dedicam-se à compreensão da ciência e da tecnologia a partir de um olhar dirigido a sua gênese social, iluminando as formas de produção e validação do conhecimento científico e tecnológico e seu envolvimento em decisões políticas e práticas sociais diversas. Em relação às mudanças climáticas, programas em ESCT nas mais renomadas universidades do mundo, e redes de pesquisa internacionais como a 4S (Society for Social Studies of Science) e brasileiras como ESOCITE BR (Associação Brasileira de Estudos Sociais das Ciências e Tecnologias) e ReACT (Rede de Antropologia da Ciência e Tecnologia), têm produzido estudos e organizado grupos de trabalho que discutem as transformações geradas pelo desenvolvimento do conhecimento tecnocientífico climático nas sociedades, explorando seus efeitos políticos, simbólicos e materiais.

Ao elaborar um renovado número de questões às Ciências Sociais e às suas disciplinas correlatas, a discussão feita pelos ESCT em torno das mudanças climáticas procuram compreender como as pesquisas científicas em clima historicamente transformaram noções básicas de natureza e fundamentaram as políticas climáticas internacionais; quais os diferentes modos pelos quais a ciência pode informar a política nas questões climáticas e quais são os limites dessa relação; como diferentes comunidades científicas produzem e validam conhecimentos sobre mudanças climáticas e como diferentes países e ambientes socioculturais podem perceber e valorizar diferentemente o papel da ciência nesses assuntos. De um modo geral, tais questões interrogam de maneira crítica e reflexiva os modos de produção de conhecimentos e suas interrelações sociais e políticas, dirigindo um novo olhar a essas relações, e gerando oportunidades para que as decisões públicas que envolvem conhecimentos específicos se tornem mais participativas.

Dada a relevância desses estudos para as questões climáticas contemporâneas, no período de 11-12 de Abril de 2016 foi realizado o workshop Mudanças do Clima, Tecnociência e Sociedade, na Universidade Estadual 

de Campinas (UNICAMP) (São Paulo, Brasil), que reuniu uma comunidade de pesquisadores brasileiros e estrangeiros, oriundos de diversas disciplinas para refletir sobre as mudanças climáticas a partir dos aportes dos ESCT. A fim de fortalecer e consolidar uma rede de pesquisas em torno dessa articulação entre ciência, tecnologia e sociedade, o workshop teve como objetivo debater como a ciência e a tecnologia participam das discussões sobre mudanças climáticas e as políticas desenvolvidas nesse âmbito no Brasil.

O workshop foi dividido em 4 mesas e 2 conferências organizadas em 2 dias.

 A primeira mesa, intitulada Conhecimentos “Não-Científicos” e Mudanças Climáticas, discutiu questões relacionadas a como conhecimentos tradicionais e indígenas têm participado (ou não) da formulação da política climática brasileira e quais as potenciais contribuições desse tipo de conhecimento para as questões climáticas. Os diálogos dessa mesa criticamente apontaram para o fato de que esse tipo de conhecimento é frequentemente ignorado e desacreditado nesses processos, sendo excluído da formulação de política. Apesar de estarem sofrendo com os efeitos das alterações climáticas e estarem produzindo seu próprio conhecimento a respeito, povos indígenas, dentre outras populações tradicionais do Brasil, não são ouvidos nos arranjos governamentais organizados para tratar essas questões.

A segunda mesa, denominada Diálogos Transdisciplinares e Mudanças Climáticas, abordou os desafios de integrar ciências naturais e sociais para compreender mais profundamente as mudanças climáticas. A questão central foi: por que as contribuições advindas das ciências sociais mantêm-se marginais na produção da ciência e da política climática? Essa questão, que tem sido debatida em relação a própria organização do IPCC, também se expressa nas redes de mudanças climáticas da América do Sul tornando-se um desafio à governança climática em nível global e regional.

Na mesa Comunicação, Conflito e Adaptação, os debates ocorreram em torno do tópico de como ocorre a compreensão pública das ciências climáticas e a participação da sociedade civil nas questões de mudanças climáticas no Brasil. Através de estudos de caso de projetos brasileiros de adaptação às mudança climáticas, discutiu-se relações diversas entre identidades, riscos, vulnerabilidades, práticas e tecnologias que ocorrem nos processos de implementação desses projetos. A principal conclusão dos debates foi que diferentes percepções das vulnerabilidades e diferentes necessidades presentes nos processos de adaptação de distintos indivíduos e grupos sociais são culturalmente específicas e requerem uma maior compreensão das ciências sociais a respeito de como impactos das mudanças climáticas afetam e são compreendidos diferentemente por comunidades locais.

A última mesa, intitulada Redes de Conhecimento e Tomada de Decisão, explorou como as ciências climáticas no Brasil identificam e delimitam distintos problemas relacionados às mudanças climáticas de maneira que se tornem objeto de ações governamentais. Em suas falas, os participantes enfatizaram a importância das redes de pesquisa brasileiras sobre desmatamento da Floresta Amazônica e sua relação com a agenda de política externa do governo brasileiro – associada às políticas de mitigação de emissões de carbono no combate ao desmatamento. Considerou-se que, historicamente, o conhecimento em mudanças climáticas relacionado ao desmatamento da Amazônia emergiu em complexa relação com leis, políticas e instituições governamentais. Estas associações coproduziram a predominante compreensão científica e burocrática do problema do desmatamento que embasa as negociações nas arenas internacionais da política climática.

Em diálogo com as mesas, o workshop também contou com duas conferências.

A primeira delas, ministrada pela Dra. Myanna Lahsen, antropóloga do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE), explorou programas e plataformas internacionais de pesquisa que dão suporte para iniciativas de transição para a sustentabilidade. Com o título Contribuições das Ciências Sociais para a Governança Climática, a palestra discutiu a formação histórica de programas como o Future Earth, o qual tem buscado incluir as ciências sociais em seus trabalhos mas que, no entanto, ainda mantêm-se fortemente balizado por iniciativas de instituições científicas que resistem a integração e reconfiguração das agendas de pesquisa em sustentabilidade; o que, por sua vez, constitui obstáculos para alcançar efetivas transformações sociais para a sustentabilidade.

A segunda conferência, ministrada pelo Dr. Raoni Rajão da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), abordou a participação brasileira na Conferência das Nações Unidas para Mudanças Climáticas em 2015. A conferência intitulada Performing Climate Justice and (post) Coloniality at the UN Climate Negotiations trouxe informações baseadas em trabalho etnográfico e participação pessoal do pesquisador na reunião das Nações Unidas, experiência através da qual o palestrante pode analisar negociações que ocorreram entre a comissão brasileira e de outros países. Rajão argumentou que políticas climáticas são performadas de maneiras específicas por países do Sul Global como o Brasil, que advoga a justiça climática para economias menos industrializadas enfatizando suas diferentes emissões de carbono em relação aos países industriais avançados.

O workshop resultou em uma proposta para a realização de uma rede formal de pesquisa em ESCT e mudanças climáticas no Brasil através da qual os participantes do workshop possam dar continuidade aos diálogos e trabalhos realizados no encontro. Essa rede pretende identificar e abordar questões-chave das mudanças climáticas através da perspectiva das Ciências Sociais e ESCT.

Pesquisadores (as) Participantes

Dr. Myanna Lahsen (Brazilian National Institute for Space Research)

Dr. Juliane Jarke (Bremen University)

Dr. Raoni Rajão (Federal University of Minas Gerais)

Dr. Gabriela Di Giulio (University of São Paulo)

Dr. Renzo Taddei (Federal University of São Paulo)

Dr. Jorge Calvimontes (University of Campinas)

Dr. Fabricio Neves (University of Brasilia)

Dr. Diógenes Alves (National Institute for Spatial Research)

Dr. Tiago Duarte (University of Brasilia)

Dr. Erika Mesquita (Federal Institute of Acre)

Dr. Adriano Premebida (Federal University of Rio Grande do Sul)

Dr. Marko Monteiro (University of Campinas)

Dr. Roberto Donato (University of Campinas)

Dr. Thales Haddad (Federal University of São Carlos)

Dr. Cecilia Hidalgo (University of Buenos Aires)

Ms. Jean Miguel (University of Campinas)

 

** Eglish Version **

 

Contemporary societies are being transformed by a growing concern with global environmental risks. Climate change has emerged in the last decades as a public issue posing challenges to both science and politics. Scientists and policymakers in general accept that planetary climate change can be best understood by identifying a range of causal forces (natural and social). However, social variables and the uncertainties and complexities they entail to both understanding and coping with climate change are usually marginal in current climate governance. To tackle this topic and discuss alternative lines of research and practice, a group of mostly Science and Technology Studies (STS) researchers organized a workshop in Brazil to discuss how they can effectively engage with climate change in Brazil and Latin America.

The central role of science in understanding climate brings up many questions for STS:  how do people in various cultural and historical contexts validate and use climate knowledge?; how are scientific facts and images of climate science taken up in society as people incorporate them into collective norms, behaviors, and institutions?; and how can different types of knowledge (both scientific and otherwise) enrich our understanding of climate change?

A growing number of Brazilian and South American research groups have been exploring the links between science and technology and climate policy. Informal networks have been set up and culminated in the Workshop on Climate Change, Technoscience and Society, which took place in April 11 and 12 at the University of Campinas (State of São Paulo, Brazil). The main objective of this meeting was to bring together STS researchers interested in the production of climate knowledge from South American perspectives. The meeting enabled a diagnosis of emergent initiatives of the Brazilian ans South American scientific communities and governmental institutions for responding the social and scientific challenges posed by climate change. The participants of the workshop focused on questions related to how Social Sciences and STS can contribute to the production of climate knowledge and climate policy, reflecting on topics such as public communication of risks, local knowledge and climate change, and social engagement with environmental issues.

The workshop was divided into 4 panels and 2 keynote lectures spread over 2 two days.

The first panel, entitled “Non-scientific” Knowledges and Climate Change, discussed questions related to how traditional and indigenous knowledge have participated (or not) in the production of  climate policy in Brazil and their potential for bringing a wider understand of climatic issues. The dialogues that took place in this panel critically pointed out that these types of knowledge are frequently ignored and discredited, being thus excluded from policy-making processes. Albeit suffering the effects of change and having produced their own rich understanding of their meanings, indigenous and other traditional groups are seldom heard in current governance arrangements. 

The second panel, called “Transdisciplinary Dialogues and Climate Change”, addressed the challenges of integrating natural and social sciences to better understand climate change. The central question was why the contributions coming from the social sciences remain marginal in the production of both knowledge about climate change and climate policy? This issue has been more debated in relation to organizations such as the IPCC and some international climate change research programs, but it remains a challenge both for South American and global climate governance.

In the panel “Communication, Conflict and Adaptation”, the papers revolved around topics such as public understanding of climate science and public participation in Brazil. The case studies discussed a range of entanglements between identities, risks, vulnerabilities, practices, and technologies in Brazilian projects of climate adaptation. The main conclusion was that different perceptions of vulnerabilities and needs for adaptation of individuals and groups are culturally-specific and this calls for a more socially and culturally sensitive understanding of climate change impacts on local communities.

The last panel, which was entitled “Knowledge Networks and Decision Making” explored how climate science in Brazil identifies and delimits distinct problems related to climate change that are considered suitable for scientific investigation. The talks emphasized the importance of Amazon deforestation for scientific networks and for the Brazilian government's agenda on climate change research and mitigation efforts. Historically, climate change knowledge related to Amazon deforestation has emerged in relation to laws, policies and governmental institutions. These associations have co-produced the predominant scientific and bureaucratic framework that deals with environmental issues, which relates also to how Brazil negotiates in international arenas. 

In addition to the panels, the workshop also included two keynote lectures.

The first lecture, given by Dr. Myanna Lahsen, anthropologist at the Brazilian National Institute for Space Research (INPE), explored international research programs and platforms for engagement aiming to support transitions toward sustainability. With the title “Contributions from Social Science to Climate Governance”, the talk discussed the historical formation of programs like Future Earth, which have tried to include more social science in their work but are still deeply embedded in scientific institutions that resist such integration and redesign of the research agenda to better respond to the sustainability challenge. This constitutes a formidable yet insufficiently recognized obstacle for societies seeking to improve their knowledge basis and action in favor of effective societal transformation towards sustainability.

The second lecture, given by Dr. Raoni Rajão, from the Federal University of Minas Gerais (UFMG) in Brazil, addressed the participation of the Brazilian government in the United Nation Conference for Climate Change in 2015. The lecture was entitled “Performing Climate Justice and (post) Coloniality at the UN Climate Negotiations” and gave a personal and ethnographic account on how climate negotiation occurred in that meeting. Rajão argued that climate policies are performed in specific ways by Global South countries like Brazil, which advocate climate justice for less industrialized economies by emphasizing the disparate contribution they have had to carbon  emissions.

The workshop produced a proposal for a formal STS Climate Change Network in Brazil through which the workshop participants can keep an ongoing dialogue and work towards improved integration across disciplines. This network hopes to identify and address key questions that can be explored from the perspective of the Social Sciences and STS.

Workshop Participants

Dr. Myanna Lahsen (Brazilian National Institute for Space Research)

Dr. Juliane Jarke (Bremen University)

Dr. Raoni Rajão (Federal University of Minas Gerais)

Dr. Gabriela Di Giulio (University of São Paulo)

Dr. Renzo Taddei (Federal University of São Paulo)

Dr. Jorge Calvimontes (University of Campinas)

Dr. Fabricio Neves (University of Brasilia)

Dr. Diógenes Alves (National Institute for Spatial Research)

Dr. Tiago Duarte (University of Brasilia)

Dr. Erika Mesquita (Federal Institute of Acre)

Dr. Adriano Premebida (Federal University of Rio Grande do Sul)

Dr. Marko Monteiro (University of Campinas)

Dr. Roberto Donato (University of Campinas)

Dr. Thales Haddad (Federal University of São Carlos)

Dr. Cecilia Hidalgo (University of Buenos Aires)

Ms. Jean Miguel (University of Campinas)

* Jean Hochsprung Miguel is Sociologist, master in Science and Technology Policy and Phd student at the University of Campinas, (São Paulo, Brazil), at the Department of Science and Technology Policy. He investigate the practices of climate science and sociopolitical dynamics of climate change in Brazil. Contact: jean.dpct@gmail.com

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