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Seminário de Estudos Latino-Americanos e Pós-Coloniais de CTS

Tiago Ribeiro Duarte and Luis Reyes-Galindo

12 July, 2016

The Workshop on Latin-American and Postcolonial STS took place at the University of Brasília, Brazil, from 18th to 20th of May. It was organised by Dr. Tiago Ribeiro Duarte (University of Brasília) and Dr. Luis Reyes-Galindo (Cardiff University) to get scholars from Brazil and other countries in Latin America together to debate through the presentation of empirical case studies what is specific about doing STS research in Latin American contexts and what theoretical/methodological approaches are more promising for researching science and technology in this continent. The workshop had the prestigious feminist and post-colonial scholar Prof. Sandra Harding as its keynote speaker and had sessions on Ontologies and STS in Latin America, Postcolonial STS studies, and the Science/policy interface in Latin America. The event brought together 15 speakers from Brazil, Argentina, Mexico, and the US. It was a great success, with exciting presentations and lively debates. Around 250 people attended Prof. Harding´s keynote speech and from 60 to 100 people attended each particular session. (in Portuguese and English)

No dia 18 de Maio, realizou-se na Universidade de Brasília a conferência de abertura do Seminário de Estudos Latino-Americanos e Pós-Coloniais de CTS proferida por Sandra Harding (UCLA). Ela apresentou o artigo “How do Latin Americans co-produce their sciences and their social worlds?”, o qual foi um excelente início para os três dias de evento. Em sua apresentação, Sandra Harding fez uma ampla síntese da literatura pós-colonial e decolonial relevante para os Estudos Latino-Americanos de CTS, além de introduzir os problemas mais importantes para o campo a partir de uma perspectiva filosoficamente e politicamente engajada. A conferência de abertura foi um grande sucesso de público, contando com aproximadamente 250 pessoas vindas de diversos departamentos da universidade que lotaram o auditório para este início de atividades. Além do conteúdo de sua apresentação, a simpatia e gentileza de Sandra Harding também deixaram uma excelente impressão em todos os presentes

 

Durante os outros dois dias do seminário, quinze pesquisadores/as do Brasil, México, Argentina e Estados Unidos discutiram possíveis novas direções para os estudos CTS na América Latina, apresentando um número significativo de trabalhos empíricos, assim como propostas para se avançar perspectivas teóricas para a região. As apresentações foram organizadas em três eixos temáticos: Ontologias e os estudos CTS na América Latina; Abordagens pós-coloniais nos estudos CTS; e A interface ciência/políticas públicas na América Latina.

O segundo dia do evento foi aberto por Fernanda Sobral, professora do Programa de Pós-graduação em Sociologia da Universidade de Brasília. Em sua fala, ela reconstruiu os aproximadamente trinta anos de estudos CTS no Departamento de Sociologia da UnB. A seguir, iniciou-se a seção sobre ontologias e os estudos CTS.  Ivan da Costa Marques, um dos mais proeminentes pesquisadores do campo na América Latina, apresentou um trabalho sintetizando os principais desafios colocados pela virada ontológica para a autoridade da ciência, os quais abrem espaço para que a sociedade contemporânea comece a levar em consideração com maior seriedade conhecimentos locais. A seguir, Guilherme Sá apresentou um artigo preparado em colaboração com Leila Saraiva e Rosana Castro, o qual coloca em cheque a noção de que pesquisadores/as dos estudos CTS podem produzir conhecimento de validade universal, uma vez que todo conhecimento é produzido em condições locais alicerçadas em compromissos ontológicos específicos. A sessão terminou com a apresentação extremamente provocadora de Renzo Taddei, cuja pesquisa examina um instituto baseado no Rio de Janeiro que vende serviços de manipulação climática, no qual meteorologistas trabalham lado a lado com xamãs indígenas. O argumento central de Renzo consistiu na ideia de que é possível haver colaboração mesmo entre grupos com compromissos ontológicos completamente diferentes.

No período da tarde foram apresentados dois trabalhos cujo objetivo era colocar em contexto perspectivas pós-coloniais na América Latina.  Fabricio Neves propôs uma abordagem fenomenológica para as categorias “centro” e periferia”, as quais teriam o potencial de mostrar como práticas rotineiras de cientistas reforçariam a existência de formas “legítimas” de se fazer ciência. Estendendo a noção desenvolvido por Knorr-Cetina de administração da relevância, ele argumentou que cientistas situados/as nas periferias administrariam a irrelevância de seu trabalho, reforçando as desigualdades entre a produção científica de diferentes partes do mundo. Raoni Rajão argumentou que o conceito de “mito” poderia seria uma ferramenta conceitual útil para cientistas sociais estudarem ciência e tecnologia sob uma perspectiva pós-colonial. Sua apresentação enfocou o papel desempenhado pela criação de mitos (mythmaking) em contextos tecno-científicos brasileiros. Ele argumentou que o Brasil necessita construir mitos mais positivos sobre si mesmo ao invés de insistir em narrativas negativas sobre sua história. Os trabalhos apresentados por Leandro Rodríguez-Medina e Luis Reyes-Galindo giraram em torno de programas de pesquisa que buscam entender as diferentes formas de circulação de conhecimento entre centros e periferias. O primeiro apresentou resultados fascinantes oriundos de seus estudos empíricos sobre o fluxo transnacional de cientistas sociais mexicanos/as; o último examinou a legislação mexicana que trata do acesso livre a periódicos científicos e o modo como ela foi concebida e desenvolvida. Ele argumentou que ela é baseada em um modelo problemático de acesso livre e que isso vem tendo implicações negativas no contexto mexicano. 

O terceiro dia do evento começou com uma sessão sobre a interface entre as ciências ambientais e a formulação de políticas públicas, a qual girou em torno das mudanças climáticas. Myanna Lahsen, uma das mais importantes pesquisadoras sobre o tema em nível mundial, apresentou evidência de que apesar de o Brasil ser geralmente visto como um bom exemplo em termos de políticas climáticas, a forte cultura carnívora do país passa desapercebida pela sua comunidade científica e pela mídia, mesmo sendo a produção de carne uma grande emissora de gases estufa. Em seguida, Marko Monteiro apresentou um trabalho baseado em sua etnografia em um projeto colaborativo e multidisciplinar internacional cujo objetivo era melhorar modelos climáticos sobre a Amazônia por meio da incorporação de variáveis sociais e da inclusão de stakeholders locais no processo de geração de conhecimento. Ele argumentou que etnografias poderiam ter um impacto ativo na (re)construção de conhecimento científico sobre o meio ambiente e em políticas climáticas. A sessão terminou com Tiago Duarte apresentando um trabalho com dados sobre os/as autores/as dos relatórios preparados pelo Painel Brasileiro de Mudanças Climáticas. Ele enfatizou a existência de desigualdades regionais, disciplinares e de gênero entre os/as autores/as do painel e fez sugestões sobre como estas desigualdades poderiam ser reduzidas.

Na última sessão foram apresentados três estudos de caso que exemplificam como contextos locais afetam projetos científicos e tecnológicos. Adriano Premebida, através de um estudo realizado em Manaus, descreveu as consequências negativas que a burocracia local pode ter no desenvolvimento e continuação de projetos científicos ambiciosos, mesmo a despeito de intensos esforços de cientistas e administradores/as para manter o projeto em andamento. O estudo de caso de Sayonara Leal sobre aplicativos de TV digital brasileiros ilustrou como tecnologia localmente desenvolvido pode empoderar cidadãos/ãs e promover justiça social em uma região onde a televisão é frequentemente retratada negativamente como uma tecnologia “desempoderadora”. Ela também relatou tensões entre as expectativas dos/as usuários/as, as funções presentes nos aplicativos e como estas tensões levavam a reformulações dessas tecnologias. Por fim, Aline Guevara, em seu papel duplo de comunicadora professional de ciência e pesquisadora, discutiu como alguns modelos ultrapassados de comunicação científica na “big science” latino-americana podem, de modo não premeditado, tornar-se instrumentos que sustentam desequilíbrios de poder, bloquear deliberações relacionadas a políticas públicas relacionadas a ciência e tecnologia e causar injustiças epistêmicas para grupos minoritários.

Foi com grande satisfação que vimos o grande interesse na palestra de Sandra Harding se espalhar pelo resto do evento, com as apresentações no auditório do Instituto de Ciências Sociais da UnB tendo uma média de público elevada, aproximadamente cem pessoas no segundo dia e setenta no terceiro. A audiência, composta de estudantes e professores/as, teve a oportunidade de interagir e lançar perguntas desafiadoras para os/as palestrantes/as, tendo sido de vital importância para o enriquecimento do debate. Para mais detalhes sobre o evento, o programa pode ser acessado em sua página na internet: http://luisreyes92.wix.com/bsb16-por.

O evento foi organizado com a inestimável ajuda de estudantes e do pessoal administrativo do Instituto de Ciências Sociais e por meio de financiamento obtido junto à Academia Britânica, por meio do edital British Academy Newton Mobility Grant. Com o intuito de tornar o evento o mais acessível possível, tradução simultânea do inglês para o português e do português para o inglês foram disponibilizadas graças a financiamento adicional fornecido pelo Programa de Pós-Graduação em Sociologia da UnB e pelo Departamento de Ciências Sociais da Universidade de Cardiff. As páginas do evento na internet, no Facebook e postagens no Twitter foram extremamente bem sucedidas, tendo sido amplamente acessadas. Com a ajuda da aluna de pós-graduação e gênia da informática Priscilla Normando, todo o evento foi transmitido ao vivo no Youtube, havendo planos de os vídeos arquivados serem permanentemente disponibilizados no futuro próximo.

*** English Version ***

On May 18 the University of Brasilia (UnB) hosted the opening conference for the Workshop on Latin-American and Postcolonial STS (Seminário de Estudos Latino-Americanos e Pós-Coloniais de CTS), delivered by Prof. Sandra Harding from UCLA. Her engaging talk was entitled “How do Latin Americans co-produce their sciences and their social worlds?” and was a great introduction to the three-day event. Professor Harding provided a well-rounded overview of the most relevant post-colonial/decolonial literature bearing on Latin American STS, as well as introducing what she considered to be the most pressing problems for the field from her philosophically and politically-engaged perspective. Prof. Harding’s talk was a great success, with a full house of around 250 attendees from all across the university’s subject areas, including many from outside STS. Her friendliness, kindness and approachability also left a most lasting impression on all.

During the next two days of the workshop, fifteen scholars from Brazil, Mexico, Argentina and the US gathered to discuss possible new directions in STS for Latin America, including a significant number of original empirical research, as well as discussion that sought to advance theoretical perspectives for the region. The talks were organized around three topical axes bearing on Latin American perspectives: the ontological turn in STS, post-colonial STS perspectives, and the interface between science and policymaking in Latin America.  

The second day of the event was opened by Prof. Fernanda Sobral, UnB Emeritus Professor of Sociology, who reconstructed the approximately 30 years of STS in the Sociology Department of the institution. This was followed by a session on ontologies and STS. Prof. Ivan da Costa Marques, a leading scholar in Latin-American STS, gave a talk summarising the main challenges posed by the ontological turn to the authority of science, which opens up space for a wider consideration of local knowledges. His talks was followed by Dr. Guilherme Sá, whose paper written in collaboration with Leila Saraiva and Rosana Castro challenged the notion that STS scholars can produce universal knowledge, given that all knowledge production is situated in local conditions, which are embedded in particular ontological commitments. The session ended with a provocative paper given by Dr. Renzo Taddei, who presented a case study of meteorologists working alongside indigenous shamans in an institute in Rio de Janeiro that seeks to manipulate the weather. Renzo argued that collaboration may take place even in the absence of shared ontological commitments.

The afternoon session included two talks that contextualized the setting for post-colonial perspectives in Latin American. Dr. Fabricio Neves proposed a phenomenological approach to the categories “centre” and “periphery” to carry out studies of how scientists’ everyday practices reinforce the existence of ‘legitimate’ ways of performing science. Extending Knorr-Cetina´s idea of relevance management, he argued that  scientists in the peripheries would manage the irrelevance of their work, reinforcing the gaps between the science produced in different parts of the world. Dr. Raoni Rajão proposed that the concept of ‘myth’ also offered a conceptual tool from which social scientists can study science and technology from a post-colonial perspective and focused on the role of mythmaking in Brazilian techno-scientific settings. He argued that Brazil needs to build more positive myths about itself rather than insisting on negative narratives about its history. The talks presented by Dr.Leandro Rodríguez-Medina and Dr. Luis Reyes-Galindo centred around research programs that aim to understand the circulation of knowledge in different forms between centres and peripheries: the former presented fascinating qualitative results of empirical studies on the trans-national flow of social science researchers (and research) in Mexico; the latter concentrated on scholarly Open Access legislation in Mexico, the way it was conceptualized and drafted, and the policy implications of  the flawed model it is based upon.

The third day of the event began with a session on the interface of environmental science and policy-making. The whole session revolved around the issue of climate change. Dr. Myanna Lahsen, a leading scholar who´s published several papers on the topic, presented evidence that although Brazil is generally seen as a good example in terms of climate policy, the country’s strong carnivore culture goes unchallenged by the national scientific community and media, even though meat production is a major source of greenhouse gases. Afterwards, Dr. Marko Monteiro presented the ethnography he carried out in an international, multidisciplinary, and collaborative research project that sought to improve climate models on the Amazon by incorporating social variables and local stakeholders in the knowledge-making process.  He argued that ethnography could have an active role in (re)building environmental scientific knowledge and climate policy. The session ended with Dr. Tiago Duarte presenting data on the authors of the reports prepared by the Brazilian Panel on Climate Change. He pointed out that there are regional, disciplinary, and gender inequalities among the panel´s authors and made suggestions on how they could be reduced.

The last session presented three case studies that were grounded in interesting examples of how local settings affect scientific and technological projects. Dr. Adriano Premebida presented a study carried out in Manaus, Brazil, in which local bureaucratic frameworks had negative consequences for the development and continuation of an ambitious scientific project, despite scientists’ and policymakers’ best efforts to keep the project afloat. Dr. Sayonara Leals case study on Brazilian digital TV apps illustrated how locally developed technology can empower citizenry and promote social justice in a region where television is often portrayed as a negative, un-empowering technology.  She also brought up tensions related to users´ expectations and what the apps could actually do and how these tensions reframed these technologies. Finally, Aline Guevara in her dual role of professional science communicator/science scholar discussed how some existing, outdated models of institutional science communication in Latin American ‘Big Science’ can unknowingly turn into instruments that sustain power imbalances, block science policy deliberation and be causes of epistemic injustice for minority groups.

We were pleased to see the great interest in Prof. Harding’s talk spill over into the rest of the event, with the presentations at UnB’s Social Science Institute (Instituto de Ciências Sociais – ICS) being extremely-well attended by about 100 and 70 people respectively on the second and third days by a lively audience of students and researchers who had the opportunity to interact with and challenge speakers, and were paramount in enriching the debate. For more details, the program can be accessed on the event webpage: http://luisreyes92.wix.com/bsb16

The event was organized with immense help from both staff and students from ICS, and through funding provided by a British Academy Newton Mobility Grant. Because we wanted to the event to be as accessible as possible for everyone involved, simultaneous translation from English to Portuguese and Portuguese to English was provided thanks to extra financial help from the UnB´s Graduate Programme in Sociology and Cardiff University’s School of Social Sciences. Our Facebook, Twitter and event website proved extremely successful, so with some help from our IT-genius graduate student Priscilla Normando the entire event was streamed live online through youtube, with plans to have the archived video permanently available online in the near future.

* Dr. Tiago Ribeiro Duarte (University of Brasília)

* Dr. Luis Reyes-Galindo (Cardiff University)

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